Manaus (AM) – O médico e empresário Mohamed Moustafa reapareceu publicamente na manhã deste sábado (3), dez anos após a deflagração da Operação Maus Caminhos, e declarou apoio à candidatura do senador Omar Aziz ao Governo do Amazonas. Em entrevista ao Portal Radar Amazônico, Moustafa, que ficou preso por cerca de 2,5 anos e hoje responde em liberdade, afirmou que pretende voltar a atuar em negócios com a administração pública.
Moustafa também negou as acusações de que teria sido o pivô de um esquema responsável pelo desvio de mais de R$ 240 milhões da Saúde do Amazonas. Ao mesmo tempo, confirmou que mantinha uma relação próxima com a família Aziz: disse ter sido médico particular da mãe do senador e afirmou ter amizade principalmente com Murad Aziz, irmão de Omar e padrinho de sua filha.
A manifestação ocorre dez anos depois da operação que investigou contratos de saúde firmados pelo Governo do Amazonas e colocou Moustafa no centro do núcleo empresarial investigado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal. A apuração alcançou inicialmente contratos do Instituto Novos Caminhos (INC) e, em seus desdobramentos, atingiu integrantes ligados aos governos de Omar Aziz e José Melo, além de pessoas da família Aziz.
A Operação Maus Caminhos foi deflagrada pela Polícia Federal em setembro de 2016 para investigar suspeitas de desvio de recursos públicos destinados à Saúde do Amazonas. Segundo o MPF, o médico e empresário Mouhamad Moustafa, apontado como líder do núcleo empresarial investigado, utilizou o INC, organização social responsável pela administração de unidades de saúde em Manaus, Tabatinga e Rio Preto da Eva, em operações que teriam envolvido pagamentos sem contraprestação e superfaturamento.
Segundo os dados reunidos na investigação, o INC recebeu mais de R$ 276 milhões do Estado do Amazonas entre 2014 e 2015. O MPF sustentou que mais de R$ 250 milhões dos recursos recebidos nesse período teriam sido utilizados em operações fraudulentas, enquanto a investigação policial apontou diferentes mecanismos de repasse e ocultação de valores.
Os vínculos investigados com Omar Aziz
A relação de Omar Aziz com o caso começou a aparecer ainda durante a apuração sobre a formação do modelo de Organizações Sociais no Amazonas. Em 23 de janeiro de 2014, o então secretário de Saúde Wilson Duarte Alecrim solicitou a descentralização do Centro de Reabilitação de Dependentes Químicos, e, em 4 de fevereiro, Omar, então governador, assinou despacho autorizando a medida.
Ainda segundo os documentos citados no relatório, o edital de convocação pública para habilitação das entidades concedeu apenas quatro dias úteis, e o INC foi a única organização a comparecer. Em 25 de março de 2014, Omar Aziz assinou o Decreto nº 34.623, que qualificou oficialmente o Instituto Novos Caminhos como Organização Social de Saúde.
As investigações também reuniram interceptações telefônicas e telemáticas, relatórios de inteligência financeira do Coaf e depoimentos de colaboração premiada. Entre os registros citados está uma mensagem de 1º de agosto de 2016, na qual Mouhamad teria escrito que “Omar foi lá comigo atrás de $$” e orientado uma operadora financeira a providenciar um pacote de R$ 200 mil em espécie.
Outro episódio ocorreu em 23 de agosto de 2016, quando mensagens interceptadas registraram uma cobrança atribuída a Omar após a liberação de pagamentos do Estado para empresas investigadas. Segundo os registros apresentados no relatório, Priscila Marcolino afirmou que programaria a retirada de recursos das contas das empresas Salvare e Hapvida para “pelo menos resolver o Omar”, e documentos bancários apontaram o saque de um cheque de R$ 250 mil da Salvare em 25 de agosto.
Os autos também mencionam um repasse de R$ 20 mil em espécie, em 9 de maio de 2015, no Hotel Emiliano, em São Paulo, a assessores de Omar Aziz. O relatório afirma ainda que, em 22 de julho de 2015, Mouhamad orientou funcionários a sacar R$ 70 mil para entrega ao policial militar Paulo José Gomes da Silva, integrante da equipe de segurança do parlamentar, sob a informação de que Omar teria solicitado apoio para o transporte do dinheiro.
Outro conjunto de informações investigadas envolveu despesas atribuídas ao entorno do senador. Entre elas está o pagamento de aluguel e despesas de um apartamento em Brasília utilizado por Omar, com pagamentos feitos por empresas como Simea e Salvare, além do custeio de atendimento médico domiciliar para sua mãe, Delfina Rinaldi Abdel Aziz, e para sua esposa, Nejmi Aziz, em valores superiores a R$ 600 mil, registrados contabilmente como “doação”.
As investigações também alcançaram integrantes da família. Segundo os documentos citados, a empresa Salvare pagou antecipadamente R$ 1.059.323,95 pelo aluguel de 550 metros quadrados pertencentes à empresa ENE Empreendimentos e Participações Ltda., da qual Nejmi Aziz era sócia-administradora, embora os investigadores tenham apontado utilização efetiva de aproximadamente 150 a 200 metros quadrados.
Ainda de acordo com o material investigativo, R$ 2 milhões foram transferidos por Janaína Coutinho, esposa de Mouhamad, para Nejmi Aziz na aquisição de um lote no condomínio Efigênio Salles. O caso também registrou a transferência de uma BMW X6, placa OAL 2013, originalmente pertencente a Nejmi, para Priscila Marcolino Coutinho, em uma operação que depoimentos atribuíram a uma determinação de Omar Aziz.
O irmão Amin Abdel Aziz Neto também apareceu nas investigações. A empresa Salvare pagava R$ 25 mil mensais à empresa Y.A. Empreendimentos, de propriedade de Amin, pelo aluguel da sala 510 do Edifício Atlantic Tower, enquanto relatório técnico da CGU apontou que uma sala idêntica, a 509, era locada pelo INC por R$ 7 mil mensais.
Já Manssur Muhammad Abdel Aziz foi citado em diálogos sobre entregas de R$ 100 mil e R$ 30 mil em espécie, enquanto Murad Abdel Aziz, apontado por Moustafa como amigo e padrinho de sua filha, apareceu relacionado à utilização de uma Mercedes-Benz SLK 250, avaliada em R$ 197 mil, cujas despesas de licenciamento, seguro e tributos eram pagas pela Salvare, segundo a investigação.
O material também registra transferências que chegaram a R$ 1,5 milhão para a Companhia Botafogo, relacionadas ao financiamento de jogos de futebol sob gestão esportiva de Murad Aziz. Os documentos citados no relatório tratam esses episódios como parte do conjunto de fatos investigados sobre possíveis vantagens direcionadas ao núcleo familiar do senador.
O nome de Omar Aziz foi separado dos demais investigados em razão de sua condição de senador. Em dezembro de 2016, o ministro Dias Toffoli, no Supremo Tribunal Federal, acolheu requerimento da Procuradoria-Geral da República para autuar inquérito específico em relação ao parlamentar e determinou o retorno dos autos referentes aos investigados sem foro para a primeira instância da Justiça Federal do Amazonas.






