Manaus (AM) – Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca na França para reforçar laços estratégicos com a Europa e preparar o terreno para a COP30, sua comitiva inclui uma figura central na disputa entre desenvolvimento e meio ambiente: a ministra Marina Silva. Criticada por setores do Congresso e por lideranças da região Norte, Marina volta aos holofotes após sua posição crítica à pavimentação da BR-319 — única ligação terrestre entre Manaus (AM) e o restante do país — reacender controvérsias sobre sua atuação.
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima vem sendo alvo de críticas, especialmente após afirmar que a BR-319 serve apenas para “passeios”, declaração que foi interpretada como um desdém às necessidades logísticas e sociais da região amazônica. A rodovia, que liga Porto Velho (RO) a Manaus, é defendida por políticos, empresários e parte da população local como essencial à integração regional e ao desenvolvimento econômico da Amazônia.
Marina, no entanto, sustenta que o impacto ambiental da obra pode ser irreversível se não houver garantias robustas de controle e fiscalização. “Não sou contra o desenvolvimento, mas sou contra a devastação disfarçada de progresso”, disse em declarações anteriores. A posição é respaldada por parte da comunidade científica, mas enfrenta forte resistência política, inclusive dentro do Congresso Nacional.
Em recente audiência no Senado, a ministra deixou a sessão antes do fim após se sentir ofendida por parlamentares, o que gerou solidariedade por parte do presidente Lula. O chefe do Executivo saiu em defesa de Marina e a exaltou como uma “companheira de extraordinária lealdade”. Ao mesmo tempo, Lula admitiu não conhecer a fundo o projeto da BR-319 aprovado recentemente no Senado, mas disse que avaliará o texto.
A declaração de Marina Silva vem no momento em que o governo enfrenta crescente desgaste popular. Uma pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (4) mostra que a desaprovação do presidente Lula chegou a 57%, o pior índice desde o início do mandato. A aprovação caiu para 40%, em um cenário que pressiona o Planalto a responder simultaneamente às demandas ambientais internacionais e aos apelos regionais por desenvolvimento e infraestrutura.
Essa ambiguidade revela uma tensão já conhecida do governo: o esforço para equilibrar compromissos ambientais internacionais com pressões locais por infraestrutura. O Planalto tenta manter a credibilidade internacional do Brasil como protagonista ambiental, especialmente com a aproximação da COP30, marcada para 2025 em Belém (PA). Mas, internamente, enfrenta um Congresso cada vez mais sensível às pautas de crescimento econômico rápido — ainda que às custas da floresta.
A polarização em torno da BR-319 se insere em um ambiente de crescente insatisfação popular. A queda na aprovação de Lula reforça os desafios do governo em manter o equilíbrio entre uma política ambiental robusta — que visa manter o protagonismo internacional do Brasil — e a necessidade de atender demandas locais por infraestrutura e mobilidade, especialmente em regiões historicamente isoladas como o Amazonas.
Com a presença de Marina na comitiva que sela uma nova etapa da parceria estratégica com a França, o governo envia sinais de compromisso ambiental. No entanto, o silêncio ou a falta de posicionamento mais firme sobre temas como a BR-319 pode minar pontes com parte do eleitorado amazônida e com parlamentares da base.
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