Manaus – 13 de março de 2020. O que deveria ser uma data comum, tornou-se um divisor de águas na história do Amazonas. Nesse mesmo dia, a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) registrava o primeiro caso do novo coronavírus (Covid-19). A partir desse momento iniciava uma intensa batalha pela vida da população.
O anúncio foi feito pelo ex-secretário de Saúde, Rodrigo Tobias, e a ex-presidente da FVS-AM, Rosemary Pinto, durante uma entrevista coletiva online. Na ocasião, a paciente é uma mulher de 39 anos, com histórico de viagem recente para Londres, na Inglaterra.
Apesar das medidas de prevenção, os casos por Covid-19 foram aumentando e preocupou as autoridades de saúde. O que era tratado como “gripezinha”, virou uma ameaça letal e ceifou a vida de várias pessoas.
Em março de 2020 foi confirmada a primeira morte da doença. A vítima era o empresário Geraldo Sávio, morador de Parintins, e estava internado no Hospital Delphina Aziz, Zona Norte de Manaus.

Com o passar do tempo, a rede hospitalar ficou sobrecarregada com pacientes internados. Devido a essa situação, o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), estabeleceu que o comércio fosse fechado na capital e no interior, com intuito de combater a propagação da doença.
A auxiliar de serviços gerais Leila Patrício trabalhou no Instituto da Mulher e Maternidade Dona Lindu no primeiro pico da pandemia. Ela disse ao Portal Tucumã que era um estresse diário e viu muitas pessoas morrerem vítima da Covid-19.
“Todas as horas chegavam grávidas com suspeita de Covid-19. Elas ficavam dentro de uma sala em observação. A equipe se equipava para fazer a limpeza da sala, uma verdadeira correria. Como é próximo do Hospital 28 de Agosto, vimos diversas pessoas chorando a perda de seus parentes que morreram vítima da doença. Foi muita tristeza”, disse.
Sepultamentos coletivos
Entre os meses de abril e maio aconteceu o primeiro pico da pandemia. Diante da situação, várias pessoas morreram e os cemitérios de Manaus passaram a realizar sepultamentos em valas coletivas.
Na época, o então prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB), chegou a dizer que os sepultamentos coletivos eram um “ato de guerra”. Mas ele voltou atrás da decisão após sofrer várias críticas.
Trocas
Enquanto o Amazonas vivia uma intensa batalha contra a Covid-19, o país testemunhava um clima de rivalidade nos bastidores do Governo Federal. O presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido), aparentemente, travava uma guerra de egos com o ex-ministro da Saúde, Luís Henrique Mandetta.
Enquanto Mandetta mostrava o caminho de como driblar a pandemia, Bolsonaro fazia o oposto e ignorava as palavras do ex-ministro.
Logo após a saída de Mandetta, o médico Nelson Teich assumiu o Ministério da Saúde, e tinha a missão de conduzir o país no combate à pandemia. Porém, ele não durou muito tempo no cargo e foi substituído por Eduardo Pazuello.

Além do Ministério da Saúde, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) também vivia constantes trocas de comando. Rodrigo Tobias, que vinha trabalhando desde o início da pandemia, pediu para sair do cargo e foi substituído por Simone Papaiz.
Recém-chegada de São Paulo, Simone Papaiz não durou muito tempo à frente da SES-AM. O seu nome foi ligado em alguns escândalos e foi demitida do cargo.
Hoje a secretaria é comandada por Marcellus Campêlo e vem dando continuidade no combate à pandemia.

Abre e fecha
Os casos por Covid-19 começaram a cair no mês de agosto. Na época, o governador Wilson Lima autorizou o retorno gradual das atividades econômicas consideradas não essenciais.
Parecia que tudo ia seguir normalmente, mas em novembro aconteceu um divisor de águas. As Eleições 2020, realizada no mês de novembro, gerou diversas aglomerações nas ruas da capital e no interior.
O Amazonas voltou a registrar altos números de casos por Covid-19. Chegando na reta final de 2020, o governador Wilson Lima fechou novamente o comércio não essencial, como forma de prevenção.

Várias pessoas não gostaram da ideia e passaram a fazer várias manifestações nas principais ruas da cidade. Após reunião, Wilson Lima decidiu reabrir o comércio com o intuito de fazer a economia respirar.
Despedida de uma guerreira
Em Manaus apenas 14 sepultamentos de vítimas pela doença foram registrados pela Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semulsp).
O último boletim epidemiológico da FVS-AM registrou 51 óbitos por Covid-19 no Amazonas, totalizando a marca de 11.482 o total de mortes.
Mas um capítulo triste estava prestes a ser escrito na história do Amazonas. A farmacêutica bioquímica Rosemary Costa Pinto, diretora-presidente da FVS-AM e principal combatente da pandemia, morreu vítima da Covid-19.

Ela foi diagnosticada com a doença em janeiro deste ano. Rosemary vinha fazendo tratamento domiciliar, mas ela não resistiu aos impactos causados pela doença.
Na época, o governador Wilson Lima lamentou a morte de Rosemary Pinto e reconheceu a importância da então diretora-presidente da FVS-AM no combate à pandemia.
“Dra. Rose era epidemiologista de carreira da FVS e atuava há 25 anos na área. Durante toda a pandemia da Covid-19 foi uma das bússolas do Amazonas na interpretação dos dados da pandemia no Estado”, disse.
Dificuldade para respirar
A virada de 2020 para 2021 tinha como propósito uma nova vida. Entretanto, logo no mês de janeiro, o Amazonas foi impactado com outra crise em meio à pandemia da Covid-19.
Diversas pessoas enfrentaram uma verdadeira odisseia na busca por oxigênio medicinal, que até então estava em falta e complicava a vida de pacientes diagnosticados com a doença.
Com isso, o Amazonas se encontrava na Fase Roxa, considerada a mais grave da pandemia. A empresa White Martins, fornecedora de gás medicinal para o estado, o consumo que era de 30 mil m³ chegou a 70 mil m³.

O sistema de saúde do Amazonas voltou a entrar em colapso. Para tentar resolver o problema, o Governo do Estado e o Ministério da Saúde criaram uma força-tarefa e passaram a transferir pacientes para outras cidades.
Mais de 400 pacientes do Amazonas foram para diferentes estados do país, em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB).
Muitos pacientes voltaram recuperados da Covid-19, representando um sinal de esperança por dias melhores.
Vacinação
Apesar das incertezas, uma chama de esperança se acendeu ainda no início de 2021. No dia 18 de janeiro a técnica de enfermagem Vanda Ortega, de 33 anos, indígena do povo Witoto, foi a primeira pessoa do Amazonas vacinada contra a Covid-19.
O Amazonas recebeu do Ministério da Saúde várias doses da CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan com a Sinovac, e a vacina de Oxford, produzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
De acordo com a FVS-AM, até o momento, 434.810 pessoas foram vacinadas contra a Covid-19. Indígenas vivendo em terras indígenas, profissionais da saúde, idosos e pessoas institucionalizadas com deficiência foram imunizadas até aqui.

A idosa Edite Alves de Souza, 84, moradora do bairro Santa Etelvina, Zona Norte de Manaus, está no aguardo de receber a segunda dose da vacina. Ela destacou a importância de se imunizar contra a Covid-19.
“Muitas pessoas dizem que a vacina causa efeitos colaterais, mas não senti nada. Se Deus quiser tudo vai melhorar, Ele colocou essa vacina em nossas vidas e vamos vencer a pandemia”, reitera.
Nas últimas 24 horas foram registrados 1.247 novos casos de Covid-19, totalizando a marca de 330.010 casos da doença no Amazonas, sendo 152.616 em Manaus e 177.394 no interior.
Atualmente há 809 pacientes internados, sendo 389 em leitos (85 na rede privada e 304 na rede pública), 399 em UTI (105 na rede privada e 294 na rede pública) e 21 em sala vermelha, estrutura voltada à assistência temporária para estabilização de pacientes críticos/graves para posterior encaminhamento a outros pontos da rede de atenção à saúde.
Foto: Bruno Kelly/Reuters; Divulgação/Semcom; Divulgação/FVS-AM; e Divulgação
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