Na última segunda-feira (12), o editorial de “O Globo” cobrou explicações da pelo atraso das produções de vacinas pela Fiocruz, eximindo parte da culpa do Governo Federal pelo atraso na entrega das doses da vacina contra a covid-19. Tais informações ganham um contraste eminente nas vésperas da implantação da CPI da Covid-19, determinada pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso.
Alvo da CPI da Covid-19, o Governo Federal pode ter uma boa defesa caso a Fiocruz não traga uma boa explicação pelo atraso da produção de vacinas no Brasil em escala industrial.
Entenda:
Contexto
Em meados de 2020, decidiu-se pela produção de 200 milhões de doses da vacina Oxford em 2021, com 100 milhões em cada semestre. Em setembro, o governo liberou R$ 2 bilhões para que a Fiocruz pudesse produzir o insumo IFA ( Ingrediente Farmacêutico Ativo da Vacina) no Brasil, sem precisar importá-lo da China, o que aumentaria ainda mais a produção. Para a produção inicial o IFA foi adquirido da China e deveria ter chegado ao Brasil em dezembro, permitindo que as primeiras doses da vacina Oxford estivesse prontas em fevereiro. O insumo não chegou e só foi entregue pela China em março. Nesse período, não se viu um alerta da Fiocruz para a mídia nacional, informando do atraso da China e, em consequência, atraso no início da produção.
A polêmica aumentou à época com o posicionamento da pesquisadora Margareth Dalcomo, que foi à mídia para criticar duramente o Governo Federal. Ela chegou a chorar em público, dizendo que a vacina não viria mais para o Brasil. No dia seguinte, a pesquisadora voltou a se pronunciar e pediu desculpas pela cena que havia promovido e desmentiu sua informação dada no dia anterior.
Com a chegada da IFA em março, a Fiocruz iniciou a produção da vacina. Definiu-se a data da entrega inicial, no entanto, novamente, houve atraso de mais de 15 dias e a Fiocruz alegou problema num equipamento de envasamento dos frascos, uma justificativa que soou estranha aos olhos da opinião pública.
Depois veio a promessa de produzir 1 milhão de doses por dia. O Ministério da Saúde acreditou e fez a programação, contando com essa produção significativa: 15 milhões de doses em março e 28 milhões de doses em abril. Enquanto isso Margareth Dalcomo voltou a se pronunciar na mídia e, ao invés de trazer explicações sobre o atraso na produção e informações de entrega de novas doses, posicionou-se a favor do lockdown nas cidades brasileiras, o que gerou ainda mais distúrbios entre a Fiocruz, a mídia e o Governo Federal que é contra a pauta por conta da convulsão social ocasionada pelo agravamento da crise econômica.
Até o dia 1° de abril, a Fiocruz produziu 2,2 milhões de doses, ao invés das 15 milhões prometidas. Alega ainda defeito na máquina recravadora. Estranho o fato de que a instituição teve um ano para preparação da produção em escala industrial e recebeu 2 bilhões para prevenção deste tipo de problemas.
Leia editorial de o Globo na íntegra:
As vacinas eram só uma promessa — e uma esperança — quando o Ministério da Saúde anunciou, em 31 de julho do ano passado, uma parceria com a Universidade de Oxford e a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca para produzir no Brasil, com transferência de tecnologia, um imunizante contra a Covid-19 que ainda estava em fase de testes, também aqui no país, mas que já despontava como um dos mais promissores na corrida para deter o novo coronavírus.
Na época, o ministério informou que o acordo garantia “total domínio tecnológico para que Bio-Manguinhos tenha condições de produzir a vacina de forma independente”. Era uma estratégia acertada. Pelo que foi divulgado, as negociações previam a produção de 100 milhões de doses no país a partir de dezembro de 2020. Trinta milhões estariam prontas entre dezembro e janeiro, e o resto, de janeiro a junho de 2021.
Mais de oito meses depois, tirando o fato de a vacina ter se revelado segura e eficaz, os planos não saíram como o ministério pretendia. Por uma série de contratempos — demora na assinatura dos contratos, atraso na chegada de insumos, problemas na instalação das linhas de produção etc. —, o cronograma ficou comprometido. Foi preciso reescrever o roteiro. Várias vezes.
A vacina que o governo queria, e de que o país dependia, não chegou a tempo. A que não queria — a chinesa CoronaVac, a que o presidente Jair Bolsonaro se referia como “vacina do Doria” — foi a que restou. Do início da campanha, em 17 de janeiro (com atraso em relação a dezenas de países), até hoje, a vacina produzida no Instituto Butantan respondeu por 80% das doses aplicadas. Ao mesmo tempo, a produção da Fiocruz ainda não decolou.
Fica difícil decolar com as sucessivas revisões de cronogramas. Primeiro, o atraso foi creditado ao envio das remessas do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) pela China. Insumos começaram a chegar a Manguinhos no início de fevereiro, com um mês de atraso. Depois, houve problema numa máquina recravadora (que sela frascos com alumínio), que ficou parada uma semana. Resultado: em março, a Fiocruz entregou ao Programa Nacional de Imunização (PNI) 2,8 milhões de doses, quando eram esperadas 15 milhões. Para abril, a estimativa chegou a ser de 27 milhões, mas foi reduzida a 18,8 milhões. A Fiocruz alega que “por tratar-se de uma nova tecnologia e da complexidade da implantação da produção da vacina Covid-19, foram necessários ajustes no cronograma”.
Não há margem para mais atrasos, por qualquer motivo que seja. O país quebrou o recorde de mortos em 24 horas. Vão-se milhares de vidas que poderiam ser salvas com as vacinas que já deveriam ser produzidas em larga escala há meses. A Fiocruz tem dito que mantém a promessa de 100 milhões de doses até julho, mais 110 milhões no segundo semestre. Mas como acreditar, se a cada semana as previsões encolhem? Ministério e Fiocruz precisam dar mais transparência ao contrato com a AstraZeneca que, inexplicavelmente, tem sido cercado de sigilo. O Brasil tem pressa, muita pressa.
Com informações via O Globo
Foto: Divulgação
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