Manaus (AM) – A renúncia do prefeito David Almeida nesta terça-feira, 31, para disputar o Governo do Amazonas em 2026, encerra um ciclo de cinco anos e três meses marcado por uma sucessão de episódios controversos à frente da Prefeitura de Manaus. Ao longo do período, decisões administrativas, relações políticas e investigações oficiais colocaram a gestão sob constante escrutínio público e institucional. A saída do cargo ocorre em meio a esse histórico, que acumulou questionamentos desde os primeiros dias de governo.
Janeiro de 2021 — Licitação do “Kit Covid” no início da gestão
Ainda nos primeiros dias de mandato, a gestão de David Almeida foi alvo de questionamentos após a abertura de uma licitação emergencial para aquisição de “kit Covid”. O caso foi reportado à época e passou a ser acompanhado por órgãos de controle, em meio ao colapso do sistema de saúde em Manaus.
A controvérsia se concentrou na inclusão de medicamentos sem eficácia contra a Covid-19, levantando dúvidas sobre os critérios técnicos adotados. O episódio se inseriu no contexto nacional de debates sobre políticas públicas adotadas durante a pandemia e uso de recursos públicos em tratamentos sem comprovação científica.
Março de 2025 — Viagem de jatinho ao Caribe durante o carnaval
A viagem internacional do prefeito e da primeira dama Isabelle Fontenelle ao Caribe, durante o período de carnaval de 2025, foi amplamente noticiada, incluindo grandes veículos nacionais em março do ano passado. O casal, que foi flagrado passeando em locais de luxo em Saint Barth. A viagem passou a ser alvo de apuração do Ministério Público do Amazonas em outubro do mesmo ano.
A repercussão aumentou com a divulgação de que o deslocamento ocorreu em aeronave privada e em meio a questionamentos sobre possível custeio por terceiros com contratos públicos. Investigações posteriores também relacionaram a viagem a empresários e pagamentos em espécie, como apontado em reportagens da Revista Cenarium e do D24AM em fevereiro de 2026.
Outubro de 2025 — Aumento de mais de 1.156% nos custos do “Sou Manaus”
O festival “Sou Manaus: Passo a Paço” também passou a ser alvo de questionamentos em reportagens publicadas em setembro de 2025 em veículos locais. As matérias destacaram o crescimento superior a 1.156% nos custos do evento ao longo da gestão de David Almeida.
As publicações apontaram ainda dúvidas sobre a transparência na divulgação de contratos, patrocínios e valores envolvidos. Em março de 2026, o Tribunal de Contas do Amazonas (TCE-AM) aceitou representação do Ministério Público de Contas (MPC-AM) sobre o caso.

Novembro de 2025 — Relações familiares com empresas contratadas
No mês seguinte, vieram novas informações a respeito das relações entre familiares do prefeito e empresas contratadas pela prefeitura. A sogra de David Almeida, Lidiane Fontenelle, atuou como administradora da empresa Murb Manutenção e Serviços Urbanos Ltda., responsável por contratos que somam mais de R$ 300 milhões com a Prefeitura de Manaus.
Além da ligação da sogra de David Almeida com a Murb Manutenções, é de conhecimento público que Lidiane Fontenelle era proprietária da microempresa L O Fênix, que presta serviços administrativos à Construtora Rio Piorini, outra empresa que mantém contratos milionários na gestão municipal.
O empreendimento funcionava na mesma sala onde está localizada a empresa de Izabelle Fontenelle, noiva de David, a SKYLine Produções LTDA., de acordo com dados da Receita Federal. O caso levou a Justiça do Amazonas a autorizar nada menos que sete investigações contra David Almeida por possíveis crimes como peculato, corrupção passiva e fraudes em licitação.
Fevereiro de 2026 — Operação Erga Omnes
Por último, a Operação Erga Omnes, deflagrada em fevereiro de 2026, passou a investigar um esquema de lavagem de dinheiro e possível infiltração criminosa em estruturas públicas. A investigação da Polícia Civil do Amazonas afirma que o grupo movimentou de cerca de R$ 70 milhões e possíveis vínculos com organizações criminosas como o Comando Vermelho.
Entre os presos e investigados está Anabela Cardoso Freitas, investigadora da Polícia Civil e ex-chefe de gabinete do prefeito David Almeida até 2023 e ex-integrante da comissão municipal de licitações da capital. O caso levou os advogados do vice-prefeito de Manaus, Renato Júnior (Avante), da esposa do prefeito, Izabelle Fontenelle, a mãe dela, Lidiane Fontenelle, e a irmã do chefe do Executivo, Dulcinéia Almeida a redigir um habeas corpus preventivo contra uma possível prisão. O grupo desistiu dias depois.







