Manaus (AM) — O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou nesta quinta-feira, 23, a Polícia Federal (PF) a instaurar um inquérito para investigar repasses de recursos feitos pelo empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, destinados à produção do filme Dark Horse, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão atende a um pedido da própria PF, com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR), e amplia as apurações sobre a origem e o destino dos valores destinados ao projeto audiovisual.
A investigação ganhou novo impulso após reportagem publicada pelo The Intercept, em maio deste ano, revelar que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) solicitou recursos a Vorcaro para financiar a produção da cinebiografia. Segundo a publicação, cerca de R$ 61 milhões teriam sido repassados entre fevereiro e maio de 2025, informação que passou a integrar os elementos analisados pelas autoridades.
Depois da divulgação de áudios atribuídos a uma conversa entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, realizada em novembro de 2024, o senador negou ter negociado qualquer vantagem indevida. Em manifestação pública, sustentou que os valores destinados ao filme correspondiam integralmente a um “patrocínio privado” e não tinham relação com qualquer irregularidade.
O caso chegou ao STF após representação apresentada pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), que pediu a abertura de investigação sobre os fatos. A solicitação recebeu parecer favorável da PGR, levando o ministro André Mendonça a autorizar a instauração do inquérito pela Polícia Federal.

Contradições e conexão com outras investigações
Documentos reunidos na Petição (PET) 16.292, autuada no Supremo em 25 de junho de 2026, apontam que a investigação busca esclarecer a movimentação financeira relacionada ao projeto Dark Horse. O procedimento também considera informações já reunidas em outras petições sobre o mesmo tema, entre elas as PETs 15.612, 16.063 e 16.078, reunidas sob a relatoria de André Mendonça por critério de prevenção.
Segundo o relatório técnico que acompanha a petição, um dos principais pontos de apuração é a divergência entre as declarações públicas dos envolvidos. Enquanto Flávio Bolsonaro reconheceu a existência de um “patrocínio privado” para viabilizar o longa-metragem, a produtora GOUP Entertainment informou formalmente às autoridades que “não recebeu um único centavo” de Daniel Vorcaro nem de empresas ligadas ao empresário.
As investigações também consideram reportagens e registros de comunicações que indicariam negociações entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro para um financiamento estimado entre US$ 24 milhões e US$ 26,8 milhões, equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões. Conforme os documentos, os valores teriam sido discutidos para custear a produção cinematográfica, cuja estreia estava prevista para setembro de 2026, um mês antes das eleições presidenciais.
Ainda de acordo com o material reunido na PET 16.292, mensagens e áudios analisados pela Polícia Federal mostram o senador tratando Daniel Vorcaro como “irmão” durante conversas sobre a liberação de recursos destinados ao filme. Os registros também mencionam preocupação com possíveis atrasos na produção, que contaria com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.
A investigação considera, ainda, a possível conexão do caso com o Inquérito (INQ) 4.995, que apura atos contra o STF e tentativas de golpe de Estado. Segundo os documentos, os elementos relacionados ao financiamento do filme foram desentranhados desse inquérito e passaram a tramitar em procedimento próprio, permitindo análise específica sobre os repasses e sua eventual origem.
O relatório também registra que a Polícia Federal apura se recursos sob investigação em outros procedimentos relacionados ao Banco Master podem ter sido direcionados ao projeto audiovisual. Conforme os documentos, essas apurações integram o conjunto de investigações envolvendo Daniel Vorcaro e fatos ligados ao colapso da instituição financeira. Até a publicação desta reportagem, a Up Entertainment, apontada como responsável pela produção da obra, não havia respondido aos contatos da imprensa para comentar o caso.






