Motoristas de aplicativo sobrevivem a violência em Manaus pelo pão de cada dia

Os motoristas articulam estratégias de segurança e justiça privada pensando na categoria
Especial Publicitário
Motoristas de aplicativo passam por sequestros e assaltos
Motoristas de aplicativos pelo pão de cada dia

Manaus – Diante de várias ocorrências relacionadas aos motoristas de aplicativo na capital amazonense, o Portal Tucumã trouxe um compilado dos principais casos, envolvendo assaltos e sequestros a categoria, até o momento no mês de outubro. O número de casos parece aumentar e a categoria clama por uma resposta efetiva do governo municipal e estadual.

Enquanto não chega a reforma na Segurança Pública do município de Manaus e no Estado do Amazonas, motoristas de aplicativo, muitos pais de família, fazem o que podem para se resguardar, organizando times de vigilância e até fazendo justiça com as próprias mãos.

Sem opções, motoristas organizam “equipes de vigília” para resguardar colegas

Antônio José Gentil, de 34 anos, passou por um grande sufoco na mão de dois assaltantes que o abordaram no bairro Jorge Teixeira na última segunda-feira, 19 de outubro.

Ao perceber que seria abordado, Gentil acionou o botão de pânico para mobilizar equipe de motoristas e isto foi essencial para evitar o pior. Assim que souberam do ocorrido, o grupo contactou os policiais militares da 30ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom), informaram amigos.

Antônio José Gentil motorista de aplicativo vítima de sequestro
Antônio José Gentil, motorista de aplicativo vítima de sequestro

Segundo as informações da polícia, os bandidos chamaram a corrida e anunciaram o assalto ainda no bairro Jorge Teixeira. Após isso, disseram para o motorista prosseguir até o ramal Brasileirinho (bairro Jorge Texeira), e o amaçaram com um revólver calibre .38.  

De volta à estrada, a dupla de assaltantes foi surpreendida pela equipe de motoristas de aplicativo que se mobilizou através do pedido de ajuda do botão de pânico de Antônio. Naquele momento, os motoristas encontraram o carro, mas sem a vítima.

“Pensamos que o Antônio estava no carro, mas quando chegamos, o veículo estava abandonado. Arrombamos o porta-malas e ele também não estava lá. Mas graças a Deus, um outro grupo o encontrou em outro ponto do ramal”, disse um dos motoristas que ajudou nas buscas.

Após encontrarem a dupla de raptores, os motoristas chegaram a golpear os suspeitos em uma tentativa de linchamento, mas acabaram impedidos pela guarnição da 30ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom), que precisou seguir o protocolo de justiça do estado.

A vítima foi levada pra o Hospital e Pronto-Socorro Platão Araújo, na avenida Autaz Mirim, também na Zona Leste da capital, e felizmente passa bem.

Antônio José Gentil, motorista de aplicativo,chega a hospital amparado por amigo
Antônio chega a hospital amparado por amigos

Vários motoristas chegaram a se deslocar para a unidade hospitalar com a intenção de fazer justiça com as próprias mãos.

“O ato é compreensível, dado o cenário de impunidade na cidade de Manaus. Os bandidos não sentem medo porque acreditam que nunca serão pegos e punidos com rigor. São presos num dia, não demora muito, a justiça libera”, declarou Caio Neto, motorista que protestava no local.

Motoristas-de-aplicativo-revoltados-contra-os-assaltantes-almejam-justica-com-as-proprias-maos
Motoristas de aplicativo revoltados se reúnem em hospital para intimidar os assaltantes.

“Isso é tudo estratégia pra fazer colégio nas facções do tráfico. Eles assaltam e roubam veículos pra conseguir dinheiro pra movimentar as facções. Todo mundo tá cansado já”, afirmou um dos motoristas de aplicativo.

Os sequestradores ainda foram encaminhados para outra unidade de saúde, no qual receberam os cuidados médicos. Após a alta, foram encaminhados para o 14º Distrito Integrado de Polícia (DIP), onde ficaram à disposição da justiça.

Trabalhava pra complementar renda, mas foi sequestrado e espancado por 5 assaltantes


José Roberto da Silva Ferreira, de 42 anos, foi sequestrado por cinco bandidos na madrugada do último domingo, 18 de outubro. Somente pela manhã, a família da vítima conseguiu localizar o paradeiro do carro, modelo Gol, mas ainda não haviam tido notícias de José.

motorista-de-aplicativo-foi-espancado-por-5-assaltantes
A vítima José Roberto da Silva Ferreira, motorista de aplicativo, foi espancado por 5 assaltantes

Quando temia que o pior pudesse ter acontecido, José Roberto foi localizado por populares que enviaram uma foto à família, confirmando que ele estava vivo. De acordo com informações do 14° Distrito Integrado de Polícia (DIP), os cincos homens que abordaram José Roberto, queriam o veículo para cometer mais assaltos.

Segundo familiares, Roberto é motorista de ônibus do transporte particular e nas horas vagas, trabalha como motorista de serviço de aplicativo.

Na noite do último sábado (17), depois de deixar o ônibus na empresa que trabalha, o motorista saiu para fazer um extra, complementando a renda familiar, através de serviço como motorista de aplicativo. A família começou a ficar aflita depois das 23:00 horas, quando José parou de responde as mensagens.

Depois de procurar o 14° Distrito Integrado de Polícia (DIP) para registrar o desaparecimento, o irmão da vítima informou que colegas de profissão e familiares se mobilizaram por meio das redes sociais para notificar o sumiço do motorista.

No início da manhã de domingo (18), os familiares rastrearam o carro, modelo Gol, de cor branca, pelo serviço de GPS. A localização do veículo apontou para a Rua Chico Mendes no Zumbi, porém sem o paradeiro de José Roberto.

Bandidos quebraram DVD do carro pensando ser GPS.
Bandidos quebraram DVD do carro pensando ser GPS. Também roubaram retrovisores e som automotivo

 “No banco de trás do carro, havia uma camisa azul e a tela do DVD também estava quebrada. Acredito que os bandidos pensavam que o DVD seria o GPS. Eles também retiraram os retrovisores”, relatou Ademar Joel da Silva, irmão de José.

Por volta das 9h30 da manhã daquele dia, a família recebeu uma foto de José com o rosto todo machucado e coberto de barro e acionou a polícia para fazer o reconhecimento.

“Nós agradecemos a imprensa que nos ajudou a encontrá-lo. Nós procuramos ele por conta própria e os profissionais da impressa ajudaram na divulgação e em pouco tempo nós o achamos, graças a Deus com vida”, disse a cunhada da vítima, Maria do Rosário.

Dentro do carro, foi constatado um cinto de segurança extra, provavelmente para amarrar José Roberto e o colocar dentro do porta-malas, mas como não conseguiram, acabaram espancando a vítima.

“Possivelmente, iriam amarrar meu irmão e fazer algo pior. Quando vimos o estado do carro, ficamos desesperados, mas, graças a Deus, ele foi encontrado logo em seguida”, relatou o irmão da vítima.

José Roberto, felizmente, foi encontrado vivo no Ramal da Gisele. E o veículo Gol, apesar dos danos, encontrado próximo ao local onde o assalto foi praticado. Os suspeitos ainda não foram presos. O celular da vítima não foi recuperado e família espera que seja rastreado.

O Portal Tucumã entrou em contato com os familiares do motorista nesta terça-feira (20), para saber sobre seu estado de saúde. Segundo informações da família de José, ele segue internado e com dificuldades de lembrar e falar detalhes sobre o ocorrido.

Tentava se redimir através de trabalho honesto, mas as facções não deixaram

Richard Pereira Gonçalves, 42, era ex-detento que cumpria pena por monitoramento eletrônico pelos crimes de tráfico de drogas. Foi na atividade como motorista de aplicativo, que ele tentava se inserir novamente na sociedade e ter uma vida digna.

No entanto, o passado de envolvimento com o crime acabou selando seu destino: No dia 16 de outubro, numa sexta-feira, o corpo de Richard foi encontrado no ramal Água Branca, situado no quilômetro 35 da rodovia AM-010, que liga Manaus ao município de Rio Preto da Eva. Em suas nádegas estavam pinchadas a sigla da facção criminosa “CV”.

Richard trabalhava como motorista de aplicativo
Pericia encontrou o corpo de Richard Pereira Goncalves no ramal Água Branca 2

De acordo com os levantamentos da polícia, Richard trabalhava como motorista de transporte por aplicativos, quando foi sequestrado na manhã daquela sexta-feira. A vítima estava com a esposa em um carro Mobi, de cor prata, trafegando pelo bairro Coroado, na Zona Leste, momento em que foi interceptado por uma caminhonete S-10 preta, que tinha giroflex.

Em seguida, três homens com coletes da Polícia Civil desceram e empurraram a esposa da vítima para fora do veículo. Richard foi agredido com socos e colocado à força dentro da picape. Horas depois, a família recebeu uma foto da vítima de bruços, com as mãos amarradas para trás e ferimentos de arma de fogo na cabeça.

Conforme informações da perícia criminal, do Departamento de Polícia Técnico-Científica (DPTC), a vítima foi morta no local e teve as nádegas pichadas com siglas “CV”, de Comando Vermelho, facção criminosa de origem carioca.

“Fui salvo por Deus, porque acabou a gasolina do carro”

Familiares e amigos de Ícaro Dominique, de 28 anos, ficaram extremamente aflitos quando o jovem desapareceu na noite da quarta-feira do dia 7 de outubro.  

No final da tarde daquele dia, Ícaro fazia sua última corrida próximo ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), na avenida André Araújo, bairro Petrópolis.

Motorista de aplicativo Ícaro Dominique, vítima de sequestro
Motorista de aplicativo Ícaro Dominique, vítima de sequestro por assaltantes

Segundo informações do colega de trabalho de Ícaro, identificado como André, ele teria entrado em contato por volta das 17 horas, informando que estaria encerrando as corridas, e que, logo após, iria até a casa do amigo. André percebeu o comportamento estranho de Ícaro, e, supondo que alguma coisa estivesse errada, mobilizou conhecidos.

“Ele apenas falou que quando terminasse a corrida iria na minha casa. Vi que era uma corrida suspeita e a voz dele era de quem estava com medo. Desde então não consegui mais ter contato com ele, nem por mensagem e nem ligação”, disse o amigo.

Ícaro foi liberado pelos assaltantes por volta das 20:30 e ficou isolado até contactar uma colega que residia próxima ao 1° DP, na praça 14.

“Foi uma amiga que fazia parte de uma equipe de motoristas de aplicativo que acionou a polícia e os demais colegas da profissão pra fazer essa informação vir a público. Eu fiquei sem dinheiro, sem telefone e sem gasolina. Não teria como me comunicar’’, conta.  

A vítima lembrou os momentos de terror vividos nas três horas sob ameaças dos assaltantes.

“Eu fiquei aproximadamente umas três horas sobre custódia deles, amarrado. Uma situação que eu não espero que ninguém passe. Foi um momento aterrorizante. Todo tempo me ameaçando, falando que iam me matar’’, declarou a vítima.

Ícaro conta que os assaltantes se preocuparam com a possibilidade de estarem sendo monitorados por aplicativos de rastreamento:

“Pegaram meu celular perguntando se eu tinha alguma espécie de localizador e disseram que se eu tivesse faltando com a verdade, eles iriam atirar em mim. Nesse momento eles abriram meu celular e viram que eu tinha enviado a localização pra um amigo. Foi aí que colocaram pressão mesmo e eu pensei que iria morrer. A minha sorte, pela graça de Deus, foi que a gasolina do meu carro acabou”.

Os familiares só foram saber o paradeiro de Ícaro, por volta das 22:00 horas, quando ele deu entrevista a imprensa. Felizmente, Ícaro saiu ileso deste episódio e garantiu que iria entrar em alguma equipe de segurança de motoristas de aplicativo.

Foto: Divulgação

Tags:
Compartilhar Post:
Especial Publicitário
Banner TCE
Manaus é Chibata